quinta-feira, 29 de julho de 2010

Quase sem querer





Os lugares-comuns, as frases feitas, os bordões, os narizes-de-cera, as sentenças de almanaque, os rifões e provébios, tudo pode aparecer como novidade, a questão está só em saber manejar adequadamente as palavras que estejam antes e depois. 



( José Saramago) 








Pegou se pensando nele de forma desconfortável uma mistura de inquietude e de insegurança. Momento errado para poder enxerga lo daquela forma. Foi o primeiro contato discreto, absolutamente normal. Nenhum gesto, nenhum olhar, nenhuma palavra fora do contexto. Mas algo se moveu e se descreveu em interesse. Ele não era do mesmo mundo do outro, embora fizessem as mesmas coisas e na maior parte das vezes pensavam quase que simultaneamente. Ele lembra de um dos poucos momentos de descontração em que um se afundou nos olhos do outro e se acharam. Questão de segundos. O tempo é relativamente compensado em registrar pequenos momentos em grandes confirmações. Ele queria estar perto. Ele queria ser parte. Ele queria ... 






Por algum motivo qualquer eles sorriram e discutiram sobre música, arte, cinema e televisão. Gostavam dos opostos e vibravam em suas coincidências. Mas tudo dentro de uma cruel normalidade. Os dias se passaram e ele passou a ouvir Rock Alternativo e passou a gostar. Uma das coisas que o aproximava dele. Em uma das noites saiu com os amigos e embora ainda despertasse o interesse de alguns perdidos entre copos, musica pop dançante e encontros casuais . Ele estava com o pensamento solto em algum lugar a espera de encontrar o outro. Onde estaria ele aquela hora? Ligou, deixou recado, escreveu, vasculhou suas fotos no facebook, interrogou amigos em comum, quebrou o sigilo desenfreado de suas expectativas, passou noites criando fantasias imaturas, bebeu em excesso ... 








Ele se sentia ligado de uma forma inexplicável a alguém que não necessariamente pensava nele. Se apaixonou pela possibilidade e por um tempo ela o bastou! 


Pensou em desistir então recebeu uma destas correntes sem propósito com uma citação de Voltaire :




“Paixão é uma infinidade de ilusões que serve de analgésico para a alma. As paixões são como ventanias que enfurnam as velas dos navios, fazendo-os navegar; outras vezes podem fazê-los naufragar, mas se não fossem elas, não haveriam viagens nem aventuras nem novas descobertas” … e então decidiu tentar mais uma vez!








E nos dias seguintes marcou encontros casuais, escreveu coisas banais entre conversas fáticas, se apegou a coisas pequenas, o enxergava na multidão, fazia planos presentes e futuros, copilava idéias soltas e chegou a colocar um toque personalizado do seu celular. Esperava as respostas e o recado na secretária
 " Todas as suas mensagens já foram ouvidas " era um desconsolo noites a dentro. Cantava Calcanhoto no chuveiro " Eu perco o chão, eu não encontro as palavras ..." . Aos poucos foi se aproximando. Sempre com cautela, na maior parte das vezes como um farsante, escolhendo as palavras de sua boca e a ansiedade de seu rosto expressivo. Tudo em vão. Porque mesmo quase sem querer ele já estava apaixonado. Uma descoberta rumo a uma viagem sem destino. 

Sorte o destino ser improvável ... 





WD`

 



Sugestão musical para post Sweet Talk por The Killers


8 comentários:

Pia Fraus disse...

ele, despretenciosamente, teve propósitos... e pretendeu!

bjos e admiração...

***Be disse...

As paixões inesperadas no fundo são intuitivamente esperadas.

Lucas Malkut disse...

Eu treinei tanto para escrever algo, e o irônico que não sei o dizer.

Anônimo disse...

Paixão platônica? Isso dá certo? Há quem diga que a paixão platônica mostra uma dose de imaturidade emocional, à medida em que nunca experimenta os limites e as frustações de uma relação concreta.
Mesmo o destino sendo improvável o final desta historia é previsível.

Pia Fraus disse...

não chegou... susana.martins@globo.com


beijo

joven disse...

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Grace Porto disse...

"A paixão jamais combina com lógica ou com racionalidade. A paixão é uma prisão paradisíaca." (Autor Desconhecido)

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