A guerreira DELMA e a sua batalha
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A suprema arte da guerra é derrotar o inimigo sem lutar.
(Sun Tzu)Um quarto de hospital como cenário. O Quarto 302. Seus habitantes? Dois homens deitados sobre suas camas hospitalares, cercados pelas paredes com cores cruas e neutras. Dividem o mesmo banheiro, o mesmo televisor e o olhar quadrado inexpressivo de uma janela estática que mostra apenas um ângulo do mundo de fora. São prisioneiros de seus corpos debilitados e de suas doenças injustas. Um deles recebe visita quase frequentemente dos amigos e de sua ex mulher com quem teve uma filha, hoje com 6 anos e com nome de romance barato vendido em banca de jornal. O outro, habitante a mais tempo do quarto recebe uma vez ou outra a visita de uma senhora evangélica que fala pelos cotovelos e que sempre sai apressada para o seus compromissos religiosos. Ela o chama de irmão. Mas como quase todos os evangélicos tratam os outros como "irmãos" não se sabe ao certo qual o grau de parentesco entre eles.
Os dois conversavam na maior parte das vezes, sobre a falta de sal da comida e da mão pesada da enfermeira sorridente do turno da noite e obviamente sobre o tipo de câncer que os levaram até ali .
-Laringe! ele ressaltou ainda com dificuldade de falar e respirar .
-Pulmonar fala o outro entre uma tossida .
Em uma das visitas a “ Ex mulher” lhe levou um jogo de xadrez junto as revistas e jornais da semana.
– Para distraí lo, disse ela usando um vestido florido que ressaltava seu corpo ainda na flor da idade. Diferente de muitos casais que se separaram por incompatibilidade de gênios, eles se separaram por compatibilidade de gênios. Ela gostava de viajar, ele também. Ela gostava de blues e jazz, ele também. Ela gostava de homens, ele também.
-Laringe! ele ressaltou ainda com dificuldade de falar e respirar .
-Pulmonar fala o outro entre uma tossida .
Em uma das visitas a “ Ex mulher” lhe levou um jogo de xadrez junto as revistas e jornais da semana.
– Para distraí lo, disse ela usando um vestido florido que ressaltava seu corpo ainda na flor da idade. Diferente de muitos casais que se separaram por incompatibilidade de gênios, eles se separaram por compatibilidade de gênios. Ela gostava de viajar, ele também. Ela gostava de blues e jazz, ele também. Ela gostava de homens, ele também.
Depois que o outro voltou de uma tomografia resolveram jogar xadrez. E passaram a se conhecer melhor. A disputa estava acirrada o que fazia o outro aparentemente perder os poucos cabelos que ainda o restavam.
– Eu daria a vida por um cigarro.
– Você já fez isso pelo mundo de Malboro, meu amigo.
– Estamos em uma clínica de desintoxicação?
– Ok, me passa sua gelatina!
E os dois voltaram a fixar seus olhos no tabuleiro xadrez.
Em uma sexta feira vésperas das eleições presidenciais discutiram sobre posições políticas. Ele era da direita o outro de esquerda e militante. Tal conversa gerou o alarme de SOS para a base de enfermeiros. A enfermeira sorridente de mão pesada chegou rapidamente e encontrou os dois sentados em frente ao tabuleiro.
- Sr. , algum problema?
- Sim . Explique a ele que a esquerda é a melhor opção para essa eleição! Antes que eu tenha um AVC.
- Acho que a definição de "direita" e "esquerda" no Brasil perdem totalmente qualquer valor. No Brasil existem os que roubam e os que não roubam que se resumem a uma minoria, quase insignificante - conclui a enfermeira retirando a comadre e seus resíduos.
Uma semana depois um deles descobriu que teria alta em dois dias. O que foi motivo de festa no quarto. Brindaram com suco de laranja. Brindavam a amizade. Brindavam a mais um dia e a vida.
- Sentirei a sua falta meu amigo. Mas antes disso vamos terminar esse jogo. Quero sair daqui um vencedor, enfatizou com um sorriso amarelado de seus dentes.
- Sentirei a sua falta meu amigo. Mas antes disso vamos terminar esse jogo. Quero sair daqui um vencedor, enfatizou com um sorriso amarelado de seus dentes.
Na manhã seguinte ele olhou para o leito ao lado e o outro não estava. Olhou pra o lado e constatou que seu jornal ainda estava lá, o que significava que o outro não o roubara aquele manhã para preencher as palavras cruzadas no banheiro. Se levantou bateu a porta. E o outro não estava lá. Depois de um certo tempo perguntou a uma enfermeira onde estava seu companheiro de quarto.
- Sinto muito. Ele faleceu esta madrugada.
Ele desconsertado chorou feito criança e precisou ser medicado. A enfermeira ao ver o tabuleiro perguntou a ele.
- Quem ganhou ?
- A vida! , conclui ele com os olhos lacrimejados dando um xeque mate.
Dizem que deixamos este mundo da mesma maneira que chegamos nele: nus e sozinhos! Então, se partimos sem nada, o que mede a vida? É definida pelas pessoas que escolhemos amar? Ou a vida é simplesmente medida por nossas conquistas? E se falharmos? Ou nunca amarmos de verdade? O que acontece? Será que podemos medí-la?
WD"
Sugestão musical para post: Run por Snow Patrol

5 comentários:
Adoro entrar no Zíper dos lugares onde vou só pra ver o pontinho vermelho marcado no mapa da página. WD', mandei a situação de acesso pra ti.
Abraços,
AM
Essa semana levei minha mãe para uma consulta de rotina e enquanto esperavamos fiquei observando o entra e sai das pessoas, grande maioria idosos, e automaticamente me perguntava até onde vai a minha vida. Entre um pensamento e outro uma voz me trazia a realidade. Voz firme, cheia de energia e que não conseguia se calar e nem se ver só; Era uma mulher de mais ou menos uns 80 anos; bem arrumada, sobrancelhas feitas (quer dizer, pintada), educada e sobre um salto consideravelmente alto a lúcida senhora não conseguia ficar em silêncio e entre um paciente e outro sempre conseguia desenvolver uma história...chegava a ser engraçado.
Eu observava e ao mesmo tempo pensava: “Meu Deus, quanta vida, quantos momentos” e dessa vez o que me interrompeu foi o silêncio, ela havia sido chamada.
Ao sair se despediu do médico e muito agradecida informou que esperaria alguns minutos pelo resultado e sentou-se ao meu lado.
Cabelos brancos como nuvem, semblante sensível esculpido pelo tempo logo me envolveu em um bate papo e rapidamente fiquei sabendo de sua de sua vida.
Viúva há 6 meses, me contou que depois de 50 anos de casada estava aprendendo a viver sem o seu fiel companheiro que partiu depois de um infarto do miocárdio fulminante. Contou-me tudo no mínimo detalhe do que acontecera no dia em que partiu seu esposo e com voz embargada me perguntou se eu entendia a vida.
Com o coração apertado tentando entender também como havia passado esses últimos 6 meses me questionei exatamente sobre isso: Como medir a vida?
Olhei em seus olhos e não encontrei palavras. E no que poderia me basear para responder tal pergunta...nos meus 34 anos de vida?
Respondi apenas que pretendo um dia entende-la e que Deus, o tempo e as pessoas a ajudaria a seguir em frente.
Qualdo ela saiu pensei: O segredo da vida no tempo cronológico dos homens não faz sentido, porque a maioria se esquecem de viver e estão preocupados somente com a morte; vivem aterrorizados e por medo da morte, têm que produzir e lucrar, antes dela alcançá-los.
No segredo da vida está implícito o mistério da morte, e somente penetra no mistério da morte quem já descobriu e experimentou o segredo de viver.
Pra mim o segredo é viver bem, através dos vários momentos que o tempo nos proporciona e embevecidos de vida ficaremos mais distantes do horror da morte e muito mais feliz.
Conclui que a vida não deve ser medida, já basta ela nos consumir pelas bordas. Me contento em vive-la somente e basta.
Beijos na Vó Wa, estou em oração por ela.
Simplesmente maravilhoso,triste e verdadeiro.
Lindo, mas muito triste. Bom pra refletir a vida....da gente.
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